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NOTÍCIA

Larry Wood anunciou sua
aposentadoria

por HWC Gary 27-03-09

Era 1969, o ano em que Apollo 11 foi à Lua. O presidente dos EUA era Richard M. Nixon e o país estava no conflito militar no Vietnã. A renda média de uma família era de apenas 8 mil dólares por ano. O New York Jets foi campeão do Super Bowl e o New York Mets, da World Series. A Vila Sésamo estava começando na TV. Ainda não existia micro-ondas, videocassete ou DVD, CDs, video game, telefone celular, câmera digital, PC e World Wide Web.
Na Mattel, Inc., um jovem e promissor designer começaria a trabalhar na famosa nova linha de carrinhos die-cast Hot Wheels®. Ele desenharia mais carros únicos do que qualquer outra pessoa no mundo; o que traria o apelido de “Mr. Hot Wheels”.

Mudança é um fator com o qual você pode contar! Quarenta anos se passaram, desenhando carrinhos, e Larry Wood, designer de Hot Wheels®, decidiu que é hora de mudar. No evento 2009 9th Annual Hot Wheels® Collectors Nationals, em Reston, Virginia, Larry Wood anunciou, discretamente, a intenção de se aposentar.
Com o anúncio da aposentadoria ainda em falta, encontrei Larry em sua garagem em Long Beach, CA e perguntei sobre como ficaria seu legado de Hot Wheels®; quais eram os planos para o futuro e como lidar com a situação para não queimar mais de quarenta anos de história.

HWC Gary: Já foi seu último dia oficial de trabalho?
Larry Wood: Já. Foi o primeiro dia do ano, assim posso dizer que trabalhei lá por 40 anos. Tanto para a empresa como para mim, foi a melhor época para isso acontecer. Agora sou consultor. Continuo fazendo carros, entrevistas e convenções. Então, ficarei mais alguns anos trabalhando como consultor.

HWC Gary: Então, não está mais no escritório. Você vai trabalhar aqui na sua loja, fazendo mais coisas reais?
Larry Wood: Sim. Ficarei a maior parte do tempo aqui na loja. A parte de ficar em escritório e ser chefe acabou. Agora tenho que trabalhar no trailer. Sempre temos o que fazer. Na verdade, me disseram que quando nos aposentamos, ficamos mais ocupados do que quando trabalhávamos. E eu não conseguia ver dessa forma porque durante 8 horas por dia, estávamos no trabalho. Para te falar a verdade, já faz 2 meses e eu não tive uma hora de descanso. Eu tenho feito muita coisa. Coisas que, provavelmente, gostaria de fazer, mas só faria por algumas horas no final de semana. E agora posso fazer o dia inteiro. E não é sempre trabalhar com carros…É arrumar coisas na casa; fazer a manutenção dos carros da família; ou viajar... Nós nunca pensamos nessas coisas até ter tempo para fazê-las. Eu pensei que ficaria perdido, sem saber o que fazer mas, ando muito ocupado. Isso é muito bom!

Eu vou para o trabalho algumas vezes por semana quando precisa. Tenho alguns carros no sistema e preciso ver se tudo está andando corretamente. Alguns carros que fiz no ano passado estão sendo finalizados agora. Por isso, tenho que conferir se estão OK. É perfeito porque estou levando tudo mais relaxado.

HWC Gary: Ainda não cansou, né?
Larry Wood: Não, é muito divertido. Agora, o melhor é que posso trabalhar na minha garagem, com carros de verdade, viajar, etc. E ainda assim tenho tempo de lançar alguns carrinhos por ano. É uma outra fase do trabalho.

HWC Gary: Como você não cansou disso depois de quarenta anos?
Larry Wood: Na verdade, é muito simples porque eu adoro desenhar carros. Eu devo ter desenhado em casa, por hobby, o mesmo número de carros que desenhei no trabalho. Eu poderia fazer isso para sempre. Desenhar carros é o que gosto de fazer… E ter idéias e depois ver o carro em die-cast é um prazer. Essa é a parte fácil. Já as reuniões e coisas desse tipo… Aí já é uma outra história.

HWC Gary: Então o seu ultimo carro como designer da Mattel é o Tri Baby Too™?
Larry Wood: Sim. O primeiro carro que fiz foi o Tri Baby. Então achamos que o último carro como designer da Mattel poderia ser o Tri Baby Too. Ele está na produção. É claro que farei carros depois, mas estarei mais na posição de consultor. A linha Larry’s Garage vai continuar e eu participarei de convenções; farei outras coisas, e também vou desenhar mais carros. Demora mais ou menos um ano para fazer um carro. Alguns carros saem no começo do ano e outros, no final do ano. Alguns carros ficarão prontos somente no próximo ano, quando eu já estiver aposentado oficialmente.

HWC Gary: Dizem que você criou mais carros do que qualquer outro designer de carros...
Larry Wood: Sentar e descobrir quantos carros desenhei é algo que provavelmente eu vou ter que fazer quando estiver aposentado e estiver sem fazer nada; o que no momento não está acontecendo. Mas seria legal saber isso. Já me perguntaram antes… Então é algo que vou descobrir e divulgar. Acho que não conseguiria saber quantos carros foram feitos de cada modelo, mas se falarmos de produtos feitos ao longo dos anos... Acredito que ninguém chegou perto do meu número. É claro que os designers que chegaram depois de mim ainda farão muitos carros e me alcançarão. Mas por enquanto…os 15 anos que fiquei desenhando sozinho me colocaram na frente do ranking.

HWC Gary: Tem alguma coisa que você acha que foi um ponto alto da sua carreira?
Larry Wood: Acho que, para mim, foi quando decidiram fazer uma linha para colecionadores. Fizemos a linha To Life Snake Funny Car e alguns carros em escala 1:18 e 1:24 bem detalhados. E depois a linha 100% que era super detalhada… Isso mudou de fazer brinquedos para fazer de verdade carros pequenos. Foi a melhor parte do trabalho desses anos: fazer os carros do jeito que sempre quis, sem a restrição de custo.

HWC Gary: Você participou bastante da decisão, correto? Você ajudou a reconhecer que existia um mercado de colecionadores?
Larry Wood: Sim. Junto com Mike Strauss. Na verdade, quando Mike me ligou e disse “Quero fazer um livro sobre colecionadores”, não existia essa coisa de “colecionadores”. Eu pensei que depois de começar, uma linha de colecionadores um dia surgiria. Começou discreta e, com o tempo, chegou a um ponto que conseguimos realmente vender a linha diretamente para colecionadores, ao invés de eles comprarem apenas carros antigos. E, é claro, que explodiu…Veja o que é hoje.

Que diferença eu fazer sozinho uns seis carros por ano para hoje em dia, com Internet e carros digitais, a linha básica e de colecionadores... É claro que Hot Wheels entra em todos os tipos de brinquedos também. Não é mais um carrinho e um conjunto. Eu nunca pensei que Hot Wheels seria uma das marcas mais fortes da Mattel.

HWC Gary: Teve algum momento ruim durante esses quarenta anos?
Larry Wood: Tive sim. Obviamente, quando a Mattel estava mal, no começo dos anos 70, foi muito ruim. Basicamente 80% das pessoas foram embora e eu fiquei lá… Hot Wheels teve uma queda e eu pensei que era o fim da marca. Foi uma das poucas vezes em que procurei outro emprego. Também tive alguns chefes com os quais eu não me dava bem, mas fazia parte do trabalho. Este é um lado bom da Mattel, é só esperar um pouco que as coisas mudam.

HWC Gary: Vimos diversas mudanças no trabalho ao longo de quarenta anos…
Larry Wood: Se alguém quisesse falar com você, não tinha secretária eletrônica, e-mail... E eu não tinha uma secretária. Então, se alguém quisesse falar comigo, tinha que ir até meu escritório, entrar e falar comigo. Não tinha computador, fax, celular, telefone fixo, secretária eletrônica… Agora está diferente. Temos e-mails, caixa postal, lembretes da secretária…

HWC Gary: E você fazia tudo à mão mesmo…
Larry Wood: Tudo era feito à mão. Os modelos eram esculpidos à mão na fábrica.

Quando cheguei, eu podia andar na fábrica e acompanhar a produção dos carros. Mas isso só durou alguns meses, até mudar para Hong Kong. É engraçado porque, naquela época, não significava nada para mim. Eu apenas entrava e os brinquedos estavam sendo feitos. Aí eu voltava para a minha sala e pronto. Agora, eu gostaria de voltar no tempo e ver todos os carrinhos da linha Redlines saindo da linha de produção. Para onde será que vão? Sabemos das histórias dos caras procurando ônibus (o original Beach Bomb)... Eles pertenciam a guardas e executivos. O lixeiro não entrava na produção, então acabava em cima de uma mesa. Encontraram com guardas e pessoas que não eram para estar com eles, mas ninguém ligava. “Isso não vai para a produção, quer algum?” Os carrinhos que não iam ser vendidos ficavam espalhados pela fábrica.

Eu lembro que nos anos 70, quando eu era o único cara lá, eu montei uma pista que dava a volta nos escritórios e coloquei Super Chargers espalhados. Um carro desaparecia por 10 minutos… você conseguia ouvi-lo batendo nos Super Chargers conforme dava a volta. Você estava na sua sala e o carro passava por você… nada de mais.

Quando Bob Lovejoy e Paul Tam estavam trabalhando lá, nossos escritórios eram perto. Fizemos uma pista e mandávamos coisas um para o outro por ela. Tinha um trem que ia e voltava. Às vezes, enchíamos de água e o trem batia em alguém. Um dia, o Bob Lovejoy mandou o trem para mim e estava em chamas! Ele colocou fluido de isqueiro. E eu com um balde de água, tentando apagar o fogo.

Essa era a parte divertida da época. As coisas corriam ou voavam e as piadas rolavam soltas. Foi a época mais divertida da empresa. Mas, novamente, Hot Wheels não era muita coisa. Era uma divisão pequena. Barbie é que era importante.

HWC Gary: Parecia um ótimo ambiente para a criatividade.
Larry Wood: Ah, era inacreditável. Era uma empresa de diversão. Nós fazíamos dinheiro, mas não era do tipo “Quanto custou esse carro?” ou “Quanto custou o conjunto?”. Sempre foi “Nossa, que conjunto legal! Vamos fazer!”. Era outro tempo.

HWC Gary: Então, talvez agora você possa finalmente responder a seguinte questão: Entre as suas criações, qual é o seu carro favorito? O que representa você, seu estilo e seus interesses?
Larry Wood: Copiar um Camaro ou outro carro era divertido. Tinha que mudar o tamanho da roda; tinha que colocar um adesivo Super Charger no capô e tudo mais... Mas a parte mais legal era fazer os designs originais. Aí podemos falar do Purple Passion, do Bone Shaker. Entre dezenas de carros, alguns não tão legais,o design original é o que divertia. Por isso, acho que são os preferidos.

Porém, acho que o meu orgulho e maior alegria na Mattel é o the Legend To Life Snake. Tinha que trabalhar com precisão; prender o anunciador; tudo tinha que funcionar. Eu saí e fotografei o carro real… E, claro, era um carro de um pouco mais de 200 dólares. Então, tinha que ser um carro diferenciado. Fazer todo o projeto… E depois de finalizado, ver como funcionou, como foi o natal e o carro fez um barulho. Acho que foi o maior orgulho de todo o tempo que estive trabalhando. Era muito mais do que simplesmente fazer mais um carro die-cast. Tinha mecanismo, tinha que ser preciso. Não era um brinquedo. Era para quem admirava carros. As pessoas diziam “Não sabia que Hot Wheels podia fazer um modelo assim!”. Isso foi a melhor parte.

HWC Gary: Falamos dos carros que você gostou... Mas e os carros que você não gostou muito?
Larry Wood: Todo mundo faz brincadeiras sobre o Bubble Gunner. Eu até que gostei pelo fato de ser uma “máquina de chiclete”... ele tinha um tema. Mas hoje, quando olho para ele eu penso: “No que eu estava pensando?”.

Acho que um dos carros que errei foi aquele ’34 Sedan Delivery. Errei um pouco na largura, era muito fino. Sempre que olho para ele, eu fico incomodado. E naquela época não tinha nada digital, que poderia analisar se fiz muito largo, muito fino, etc. Hoje, com a tecnologia digital, rapidamente você tem uma amostra na sua mão e pode analisar o que precisa mudar. Faz muita diferença. Você consegue a proporção exata, sem erros. Além da agilidade. Eu não faço o trabalho digital. Eu dou os esboços para a equipe e eles fazem esse trabalho digital. Em uma semana eles me passam uma idéia de como será o modelo, tamanho, forma e trabalhamos em cima disso.

HWC Gary: Como um profissional que já trabalha há quarenta anos no ramo, qual você acha que é, ou gostaria que fosse, o seu legado?
Larry Wood: Que eu entrei em Hot Wheels quando não era nada e estava quando se tornou a maior linha. Muitas pessoas entram no trabalho e saem do trabalho sem causar impacto. Além disso, eu mantive a sobrevivência da linha por anos, durante 15 anos eu fiquei sozinho quando Hot Wheels não era nada e estava para sair de linha.

Eu presenciei várias reuniões nas quais Hot Wheels morria. Diziam “Não estamos lucrando o suficiente. Não temos como bancar a modelagem. Vamos cortar essa linha”. Em uma das reuniões, quando perdemos as rodas Redline, eu era menino e não podia dizer “Vocês têm que manter Redlines.” Nos anos 70, tiraram as cores Spectraflame para economizar, depois Redlines... Era uma questão de sobrevivência.

A grande virada foi quando os pais perceberam, ao comprar nas lojas para os filhos, que eles gostavam também de Hot Wheels e começaram a comprar (para os pais). O departamento de design cresceu e a Mattel percebeu que algo estava acontecendo. Fazíamos um carrinho que não ia ser lá muita coisa e, de repente, fez sucesso e tínhamos que desenhar mais carros.

HWC Gary: 20 anos. As crianças que adoravam viraram os adultos que compram…
Larry Wood: Exatamente. Compram para seus filhos. É o mesmo que acontece com Barbie. A Barbie teve um grande estouro após 20 anos de lançada, porque era a época das mães que brincaram comprarem para as suas filhas e terem uma Barbie.

Isso aconteceu com Hot Wheels e Barbie… o que significa que fizemos um bom trabalho para as crianças. Elas lembram e era um bom valor para o dinheiro delas. Ainda é. É difícil acreditar que conseguimos fazer carrinhos de 1 dólar por quarenta anos. Não tem nada que tem um preço assim. Temos que dar crédito às pessoas que fizeram os veículos durante esses anos por isso.

HWC Gary: Você deve se sentir sortudo de ter tido uma carreira que gostou.
Larry Wood: Quando dou palestras em escolas e outros lugares, sempre digo que são as pequenas coisas da vida... Quando decide pequenas coisas como “Vou para a faculdade e serei um designer de carros”. Embora pareça algo grandioso naquele momento, para onde isso vai me levar? Ou quando você vai a uma festa e conhece alguém que trabalha em algum lugar como a Mattel. Você sabe da história de Howard Rees. Quase que não fomos na festa. Era uma noite nublada, e a festa era longe de onde morávamos. Estava frio e úmido, era outono. Quase que desistimos de ir. Eu estaria roubando calotas por aí. Com a idade, nós nos surpreendemos com a grande diferença que as pequenas coisas da vida fazem. Fique de olhos abertos e pense “É uma coisa que mudará minha vida?”. Às vezes será, mesmo que você não perceba. Nunca se sabe.

A minha regra é que o fundamental é acordar na segunda-feira de manhã e estar disposto a trabalhar, ao invés de ficar pensando “Eu tenho que trabalhar”. E é assim que levo minha vida. É claro que em certos momentos eu estava somente trabalhando para pagar as contas, mas a maior parte da minha vida foi pura sorte. Eu e minha esposa, às vezes, pensamos “Quanto sorte!”. Pensando em um cara que apenas gosta de desenhar e mexer com carros... Aqui estou. Já passei dos meus sessenta e poucos anos e ainda sinto como se tivesse dezesseis. É claro que quando olho no espelho eu reconheço que não sou mais jovem. Mas e se ainda temos vontades e sonhos? Eu ainda acordo cedo e me sinto disposto, me sinto bem. Não penso em parar. Vou começar um pequeno estúdio de design em casa e desenhar um pouco e, talvez, isso não me deixe ficar somente deitado no sofá. Mas se ainda temos desejo de fazer as coisas, temos que continuar a fazê-las.

Tive o prazer e a honra de trabalhar com Larry Wood algumas vezes nos últimos anos. Ele é uma inspiração, um clássico Americano. Tudo de bom, Larry!

-- HWC Gary

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